Faz tempo mesmo que eu não penso em nada pra escrever aqui. Minto. Pensar eu penso, o problema é transferir as ideias para o computador. Outro dia, pensando exatamente no que postar, lembrei de um texto que devo ter lido por volta do meu ensino médio, texto esse que me marcou muito. Não em um sentido propriamente emocionante da palavra, ou moralmente positivo, mas naquilo que a gente lê e simplesmente nunca mais esquece, como um trabalho que fiz na minha primeira série, trabalho esse que consistia em encontrar um erro de português em uma placa qualquer na rua. Tanto marcou esse trabalho que até hoje eu procuro os tais erros. De qualquer forma, procurei pelo texto marcante na internet e, ora vejam, encontrei. Então, se alguém ainda não leu, eis que vai uma boa oportunidade. Espero que gostem dele tanto quando eu gosto.
Foi num rio qualquer do Estado do Pará, Amazónia, Brasil. Pode ter sido no Guamá, no Tapajós, no Moju, no Acará, no Araguaia, no Tocantins, no Xingu, no Trombetas, no próprio Amazonas… É… pode ter sido em qualquer um, não faz diferença. O que conta é a história em si.
Era um doutor, destes metidos a sebo, que, por ser doutor, pensa que tem o rei na barriga e gosta de pisar nos mais humildes.
Esta na margem de um rio paraense, desejando passar para a outra margem.
Acercou-se de um caboclo e falou:
- Caboclo, eu quero passar para a outra margem. Qual é a tua canoa?
Nem ao menos perguntou se o caboclo podia ou não atravessá-lo.
Falou imperativamente e o pobre caboclo indicou, com um trejeito na boca, a direcção onde estava sua montaria, onde o doutor embarcou.
A bem da verdade, não sei se o doutor era de curar, de leis ou de construir. Sei apenas que era um doutor metido a besta e que gostava de humilhar os outros.
Mal a pequena embarcação desatracou, começou a espicaçar o pobre caboclo.
Ele, o doutor, sabia muito bem que o caboclo não tinha instrução.
Mesmo assim, falou:
- Caboclo, tu és formado em quê?
- Como então, dotô? Formado? O que é isso?
- Que Faculdade tu cursaste?
- Ora, mas, dotô! Eu não cursei em Faculdade nenhuma. Mas, ora…
- Então, perdeste dez anos da tua vida. Mas fizeste o segundo grau, não?...
- Mas, quê, doto. Não fiz não, isso não tem prós meus lados…
- Perdeste mais dez anos de tua vida. Pelo menos cursaste o primeiro grau?
- Não, seu dotô. Mas quando, então?
- Perdeste mais dez anos de tua vida…
O caboclo fez as contas – isto ele sabia fazer – e viu que tinha perdido trinta anos da vida dele…
Olhava o doutor com admiração, mas ao mesmo tempo já chateado de tanto estar perdendo anos de sua vida por não ter estudado…
E o doutor, implacável, fez ainda mais uma pergunta:
- Mas, caboclo, pelo menos tu sabes ler e escrever?
- Sei, não, dotô. Eu sou analfabeto de pai e mãe…
- Pois perdeste mais dez anos de tua vida…
Já eram quarenta anos que o caboclo perdia…
Estavam bem no meio do rio.
Nesse momento, a canoa começou a fazer água rapidamente e mais rapidamente a se afundar.
Aí, o caboclo apenas teve tempo para perguntar ao doutor:
- Dotô, o senhor sabe nadar?
- Não… não… disse o doutor apavorado…
- Pois então, dotô, o senhor perdeu a sua vida toda… !
O caboclo saiu nadando em direcção à margem, enquanto o doutor morria afogado, com toda a sua sabedoria…
Vale, Fernando e Monteiro, Walcyr, Histórias Portuguesas e Brasileiras para as Crianças, Instituto Piaget, pág. 97 - 102.