sábado, 10 de abril de 2010

Como escrever uma história água de salsicha em alguns passos simples

A história água de salsicha tem por finalidade treinar a escrita e, de quebra, entreter algum ávido por leituras alternativas que costuma passar horas a fio em frente ao computador em busca dessas umas. Pois bem, em alguns passos simples que eu mesma criei (lembrem-se de valorizar a criatividade, mesmo que não seja essa coca-cola toda), vou sistematizar o processo de criação de um pequeno texto preenchedor de tempos não aproveitados. Em primeiro lugar, e obviamente, escolha o enredo. É muito importante saber se a história consistirá em um drama em pleno sertão nordestino, ou em uma crítica implícita e imatura sobre a indiferença da classe média brasileira. A dica que eu dou é sempre envolver questões não muito polêmicas, mas ao mesmo tempo, que consigam trazer à tona alguma reflexão, mesmo que uma reflexão de cinco segundos que provavelmente nem será lembrada no dia seguinte. Em segundo lugar, escolha o personagem. Levando em conta que o texto não deve se prolongar demais, tente compactar as complexidades de sua preferência em falas do dito ou implicitamente nas relações que ele poderá desenvolver com algum coadjuvante. Dê um nome bem simples, mas que seja capaz de ficar na cabeça (e, por favor, algo mais original que Maria e João). Nomes cômicos, ou conhecidos como nomes de pessoas que creem que abalam na criatividade, como Wandiscleison ou Wandiswashington trazem uma ideia de comédia um pouco forçada, então, a não ser que você busque isso, evite-os. Optar por não mencionar nomes é uma boa alternativa se você buscar estender o âmbito de sua abordagem para uma generalidade, ou restringi-lo a um anonimato cujo contexto não exige denominação. Às vezes, um personagem que se chama ‘avô’ chega a ser mais interessante que um Pedro da vida. O passo complementar ao segundo é decidir se haverá ou não personagens coadjuvantes e qual a importância deles na história, ou na lição que você tenta repassar. O desenrolar da história fica a cabo da imaginação de cada um, mas um conselho que dou é que sempre se busque utilizar algumas sacadas simples que causem reflexão na pessoa. E lembre-se que uma boa história água de salsicha depende da articulação entre o meio e o fim, este devendo ser uma síntese, ou repetição da ideia que você tentou repassar ao longo do texto. Agora, texto água de salsicha não é sinônimo de texto violador dos direitos da língua portuguesa, então, por mais que você precise adequar o vocabulário do seu protagonista ao seu contexto social/histórico/geográfico, lembre-se que existe uma sutil diferença entre o ‘pra mor de nóis sair hoje à noite, uai’ e o ‘José Francisco era um omem incrivelmente belo e intelijente’ (exemplos bruscos, mas necessários para fixar a ideia). Ah, e um passo importante é escolher o a forma narrativa. Um narrador observador normalmente dispensa erros ortográficos e adequações lingüísticas, a não ser que ele seja, por exemplo, cunhado do tio do primo da vizinha do protagonista. Se o narrador é personagem, não se esqueça de adequar a linguagem dele para o contexto no qual ele se encontra. E um detalhe importante: não se esqueça do título. O título está para o texto água de salsicha, assim como a capa de um livro para esse livro, ou seja: é essencial (sejamos sinceros: 80% das pessoas julgam um livro pela capa). Como se pode observar, esse texto É água de salsicha, mas nem por isso é totalmente inútil. Se você leu, isso está comprovado. Se ele foi mesmo de utilidade, ou não, não sei, mas se algum anônimo se sentir à vontade para acrescentar ou contestar esses passos mencionados, que se sinta à vontade, afinal, esse blog é parcialmente democrático.

Por Luísa.